A ESCRAVA ISAURA
(Autor- Bernardo Guimarães)
Conta a história sentimental de uma linda escrava, torturada por um senhor
cruel e devasso, e que, afinal, é salva por um rico cavalheiro apaixonado
pela sua formosura e bondade.
Isaura não era uma escrava comum, criada na senzala, nem de cor negra.
Filha de um feitor português com uma bela negra africana, era uma autêntica
mulata clara, desses que hoje em dia ganham concursos femininos e até
representam a beleza brasileira. O autor a apresenta nas primeiras páginas do
livro, e a sua aparição se faz através de uma voz maviosa que canta cópias
sentimentais de uma cativa suspirando pela liberdade. "Se não é sereia,
somente uma anjo pode cantar assim". - diz o romancista, e leva o leitor à
sala da fazenda, onde ela, sentada ao piano, canta embevecida. A descrição é
opulenta de adjetivos e, ao gosto da época, exagerada. "Uma bela e nobre
figura de moça", com "bastas madeixas negras", colo donoso e do
mais puro lavor", de "encantadora simplicidade, porte esbelto,
cintura delicada", e mais, parecia "uma Vênus nascendo da espuma do
mar ou um anjo surgindo dentre brumas vaporosas".
Realmente, a figura de Isaura pouco tinha de uma cativa. Era de traços finos e
de pele morena, educada, cantava bem, tocava piano e fora criada pela senhora
da fazenda com todo o carinho. Tais predicados, obviamente, não eram os de uma
moça nascida nas senzalas do interior fluminense no século XIX. Talvez o autor,
ao criá-la assim, quisesse equipará-la a qualquer moça da sociedade da época para
fazer comover ainda mais os corações com sua história triste, que começa com a
morte da sua protetora, sem ter formalizada a carta de alforria em seu favor,
como prometia sempre. Isaura passa então á posse do herdeiro, rapaz
libertino e devasso. E aí começa a história.
A história se passa numa grande fazenda fluminense, situada em Campos de
Goitacases, hoje cidade de Campos. Isaura, pela sua beleza, desperta nos homens
amor à primeira vista. Leôncio, o jovem senhor, devasso, mau, perdulário, quer
forçá-la a se tornar sua amante. Henrique, seu cunhado, também a quer
conquistar, e por outro lado, o jardineiro, um anão mostrengo e feio,
personagem que faz lembrar o Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, muito em
voga na época, sonha casar-se com ela. Os dois primeiros a disputam, e Henrique
revela à sua irmã Malvina estar o seu marido apaixonado pela escrava. A esposa
abandona Leôncio, e este continua o assedio a Isaura, que o repele. Leôncio usa
de todos os recursos, até a ameaça e a violência, mas ela não cede. O português
Miguel, pai de Isaura e ex-feitor da fazenda, propõe comprar a liberdade dela
por dez contos de réis. Leôncio recusa. Miguel trama então uma fuga e consegue
viajar com a filha para Recife, onde passam a viver afastados de todos, com
nomes falsos, para escapar à perseguição de Leôncio.
Entra em cena na narrativa um novo personagem, o herói da história, um rico
moço chamado Álvaro, que por ela se apaixona e um dia a convence a ir a um
baile na alta sociedade recifense. No baile aparece um outro vilão, de nome
Martinho, que reconhece Isaura pela descrição de um anúncio de "escravo
fugido" que vira e recortara dos jornais do Rio, interessado nos dez
contos de réis da recompensa pela captura. Álvaro tenta, com seu dinheiro,
salvar Isaura, mas não consegue, e, após várias peripécias, Leôncio chega a
Recife e traz Isaura com ele para a fazenda, e ainda Miguel para cumprir pena
pelo rapto e fuga.
Novo assédio, novas propostas são feitas a Isaura pelo senhor apaixonado, mas
ela ainda não cede. Então Leôncio planeja vingar-se de maneira cruel. Manda pôr
Isaura a ferros no tronco da senzala e lhe oferece a alternativa: continuar
presa naquele instrumento de tortura para sempre ou aceitar a liberdade que ele
lhe oferece com a condição de casar-se com Belchior, o anão feio e asqueroso.
Desesperada, ela aceita o sacrifício para conseguir a liberdade, mas no dia das
bodas, inesperadamente surge o herói Álvaro para salvá-la. É que, tendo, vindo
ao Rio, soube da situação financeira de Leôncio, totalmente arruinado e cheio
de dívidas. Resolveu comprar todas essas dívidas, tornando-se assim dono da
fazenda e de todos os bens de Leôncio, inclusive de Isaura.
Álvaro vai ser feliz com a linda ex-escrava, que passa a ser a dona de toda a
fortuna de Leôncio, e este, desesperado, mete uma bala na cabeça.
INOCÊNCIA
( Autor - Visconde de Taunay)
Num dia de inverno, o sol iluminava e aquecia uma estrada por onde um viajante
cavalgava. Surge atrás dele, travando conversa, um menino conversador, chamado
Pereira. Tendo o mesmo destino, caminharam juntos.
O viajante se chamava Cirino e entendia muito de medicamentos; por isso era
considerado "doutor".
Pereira resolveu hospedá-lo em sua casa, aproveitando para deixar aos cuidados
de Cirino sua filha Inocência, uma bela cabocla, que se achava doente e
acamada. Inocência sentiu-se melhor em pouco tempo.
Durante o tratamento nasceu entre Inocência e o curandeiro um imenso amor,
proibido, todavia, porque a moça esperava o noivo Manecão, escolhido pelo pai.
Numa noite chuvosa apareceu em casa de Pereira um alemão chamado Meyer e seu
ajudante Juca. Trazia uma carta do irmão mais velho de Pereira, pedindo-lhe que
atendesse o alemão como se fosse ele próprio.
Meyer era um naturalista estudioso das borboletas. Devido aos elogios
exagerados que Meyer faz à beleza de Inocência, Pereira, rígido e severo na
moral, passa a desconfiar do hóspede. Meyer descobre um novo espécime de
borboleta, a que chamou "Papillia Innocentia" em homenagem à bela
filha do sertanejo. Pereira sente-se no dilema de cumprir, ou o dever de
atender ao pedido do irmão, ou o de preservar a honra da família.
Meyer parte e a chegada de Manecão deixa Inocência e Cirino aterrados. Cirino
se desespera e sente que perderá Inocência. Sua amada lhe diz então ter um
padrinho, a quem seu pai deve favores e atende. Se Antônio Cesário intercedesse
por eles, Pereira talvez permitisse o seu romance.
Imediatamente, Cirino foi à procura do padrinho de Inocência para que ele
impedisse o casamento dela com Manecão. Avisado por Tico, um mudinho, que com
sinais deu a entender o romance secreto. Manecão espera Cirino de tocaia e o
assassina na estrada, fugindo em seguida. Inocência também morre logo depois,
mas é imortalizada e revivida com o nome de borboleta: "Papillia
Innocentia".
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